Em tempos de coronavírus, masculinidades e a ética do cuidado.
19 de março de 2020 · 2 min de leitura

Em todos eles, sem exceção, o tom foi de não dar tanta importância à situação que estamos vivendo. E também com um acento meio de galhofa por detrás de cada comentário. Uma única pessoa falou que a coisa tava cada vez mais grave, que iam paralisar os ônibus, que tem visto notícias dos hospitais pela cidade. Ela foi a responsável por comprar o álcool em gel que eu vi no escritório da mecânica. Era Joana, a esposa do Seu Mário.
É muito frequente que os homens sejam criados para não exercerem atenção e cuidado em situações delicadas
Uma outra situação aconteceu comigo e também ouvi relatos similares de mais de um conhecido: o pai teimoso relutando em tomar as precauções necessárias, como entrar em isolamento, cuidar melhor da higiene pessoal etc. E, do outro lado, a mãe acompanhando tudo, cuidando de si, dos filhos e dos netos, e tendo que lidar com o companheiro fazendo pouco e ainda teimando em aceitar o que está acontecendo.
Sei que não estou falando de uma regra absoluta. Há muitos homens e mulheres distintos, e generalizar é sempre complicado. Mas o que eu vi nestes dois exemplos acima é algo que falamos bastante quando discutimos masculinidades e machismo: os lugares muito demarcados na forma de pensar, sentir e agir diante do mundo. Neste momento de pandemia, isso pode significar uma sobrecarga ainda maior para as mulheres, com consequências realmente muito adversas para todos.
Homens que entenderam que a situação é grave e que é preciso somar esforços e cuidados: prestem atenção nos camaradas e vejam se eles estão ligados nisso também. Nosso costume de brincar, descontrair e saber dar uma necessária avoada do real, que por vezes nos parece meio enfadonho, precisa ser muito bem dosado nesse momento. Tem um dado no modo de criação/educação machista muito presente nesse jeito de “não ligar” para as coisas e desafiar o que está colocado. Pelo bem de todo mundo, tratemos de prestar atenção nisso e dividir os cuidados necessários para que passemos juntos por esse momento delicado. Cuidar de si é também cuidar do outro e cuidar do outro é também cuidar de si.
Mais do CFSS

Mutilação Genital Feminina no Brasil
Existe Mutilação Genital Feminina no Brasil? Pratica, que ainda é uma tradição em 30 países do norte de África e Oriente médio.
Ler →
Tiago Iorc também mexeu com você?
Vocês devem ter visto por aí que, após uma temporada de sumiço depois de um “climão” cibernético envolvendo até mesmo envio de foto de pênis e vazamento, o cantor Tiago Iorc acaba de soltar música e clipe novos, né?
Ler →
Portas. Um conto de Bruna Novaes
Hoje começa os 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher. Pelo contexto racial do Brasil, dia 20 de novembro (dia da consciência negra) começa os 21 dias de ativismo. Para dar inicio a esses 16 dias resolvemos trazer um texto da médica de família e comunidade, que integra a nossa equipe do Coletivo Feminista, Bruna Novaes.
Ler →
